


Lyrics for A Alma em Cacos: Nove Cantatas Sacras para Voz e Corda
01 - Melhor que viver sem ti
Se meus olhos não te bastam,
Se meu silêncio não te chama,
Se meu amor te pesa —
Deixo que a noite me leve.
Pois amar sem resposta
É verter flor sobre mármore frio.
É gritar no abismo, entre o riso alheio.
É morrer mil vezes, vivo.
E se minha ausência for leve,
Se tua memória nem sombra guardar,
Será meu fim o único gesto
Que tua alma, por fim, poderá notar.
Pois amar sem resposta
É verter flor sobre mármore frio.
É gritar no abismo, entre o riso alheio.
É morrer mil vezes, vivo.
Que cesse este coração, não por ódio —
Mas por amor demais.
Por ter amado onde só brotou desprezo,
E insistido onde apenas o adeus se via.
02 -Onde o Amor se Torna Silêncio
Vivi,
e foi o teu nome que me moveu.
Morri,
e a tua sombra ainda me chamava.
Em cada gesto teu,
onde a minha esperança se partia —
Mas jamais se negava.
O amor que arde sem eco se transmuta:
Em desespero, a doçura,
a ternura em punhal.
E o ódio, nascido da ausência,
É só o amor que perdeu sua voz.
Presente, foste abismo;
Ausente, foste tudo.
E eu, entre os dois extremos,
Apenas me fiz ruína.
Não,
eu não peço que me ames —
Mas que saibas que houve alguém.
Alguém que te esperou no tempo sem tempo,
E que se apagou,
como a vela ao vento,
sem jamais conseguir apagar o teu nome.
O amor que arde sem eco se transmuta:
Em desespero, a doçura,
a ternura em punhal.
E o ódio, nascido da ausência,
É só o amor que perdeu sua voz.
03 - Se não me vires, não existo
Se não me vires, não existo.
Na tua pupila está a minh’alma.
Que adianta o existir, se eu não vivo em ti?
Que é o espírito, se ele não sopra em teu ar?
Sou sombra sem luz,
Não tenho voz se teu coração não responde.
Se não me reconheces, até Deus me ignora.
Se existo através de ti
Não é a servidão, mas a verdade do meu amor.
Pois o espelho me ama por obediência —
Mas que podes criar… ou destruir.
Se me vês, floresço em mundo.
Se não me vês, sou o pó tumular.
Um só,
“te vejo” vindo de ti.
Vale muito mais que mil outras vidas.
O pior não é ser amado apenas no espelho.
Meu coração, devorado por si,
Implora que teu olhar
Seja minha própria origem.
Se existo através de ti
Não é a servidão, mas a verdade do meu amor.
Pois o espelho me ama por obediência —
Mas que podes criar… ou destruir.
E se não sou para ti,
Que eu nada seja então.
Não morro por ódio.
Morro por não ser visto por ti.
04 - Aqueles Que Olham Sem Serem Vistos
Tenho olhos, mas só a ti vejo.
Todo o resto,
não importa,
se esvanece em tua ausência.
A criação inteira empalidece
Diante do vulto do teu não-olhar.
És a minha aurora, incapaz de me ver.
Sou tua noite, diante do teu dia.
E mesmo quando passas por mim —
teus olhos estão sempre muito além.
Não é a dor o que sinto.
É algo inexplicável para expressar,
algo mais antigo que nossa criação…
É o peso de existir só como espectador,
De ser presença, que não penetra teu mundo.
És templo, e eu —
um fiel mendigo de fora,
Que reza por entre as frestas,
suplicando a um Deus, que não me atendes.
Amar-te é oração sem resposta.
Esperança que já sabe do fim.
O amor puro que torna-se martírio,
Quando o amado é cego pela imposição do seu desejo.
Viver sem teu olhar
É viver entre vivos que já morreram…
Por que nunca me deste teus olhos,
Se nenhum brilho neles é visto por mim?
Por que me fizeste chama pulsante,
se tua pele jamais quis calor?
Que ao menos o meu fim
seja leve como tua indiferença.
És templo, e eu —
um fiel mendigo de fora,
Que reza por entre as frestas,
suplicando a um Deus, que não me atendes.
Pois não morro por ti.
Morro por nunca ter sido
os teus olhos que tanto desejei.
05 - Confissão do Último Devoto
Jurei ao Céu meu amor casto,
Em teus olhos busquei o altar.
Fiz de ti minha santa,
E de cada espera, um rosário de dor.
Mas o teu olhar,
que nunca me encontrou.
Fez do teu silêncio,
que era mais que divino:
Uma era de condenação.
Não ser amado por ti
Foi mais cruel que qualquer inferno merecido por mim.
Então — se o Céu não me quer,
Que o abismo me tome em seus braços.
Se tua graça não me salva,
Que tua ausência me amaldiçoe.
Eu que beijei o chão que pisavas,
e ofereci o meu sangue à tua austera ausência.
E agora, renegado,
Faço do escuro meu templo.
De que serve ser puro
Se o amor,
que foi tão puro não me quis?
Tua recusa é meu batismo,
vertido em pecado,
e teu desprezo, minha nova aliança.
Onde Deus se calou,
o Fogo falou.
Onde o amor me negou,
o desejo me nomeou.
Agora eu amo assim,
Sem a esperança,
sem o perdão,
sem o céu.
E se um dia tu me vires —
Desejo que já seja tarde demais para nós.
Pois já serei sombra.
Estarei no limbo.
E queimarei minha visão no inferno que me trouxestes,
e continuarei a te amar sem meus olhos.
06 - A Última Visão do Cordeiro
Quebrei o espelho —
não por ira,
mas por desespero.
Pois ali não vi minha imagem,
mas sim,
claro como dia,
eu vi o teu rosto.
E era tão real, tão eterno e tão belo,
que conjurei o próprio espelho que te venerava mais do que eu.
Saí às ruas sujas,
entre tavernas de vozes ocas,
bebi o vinho dos perdidos
e prostrei-me entre perfumes impuros.
Mas onde eu olhava,
— lá estavas tu.
No sorriso da cortesã,
no suor do forasteiro,
no suspiro do pecado.
O teu rosto. Sempre o teu rosto.
Até nos olhos fechados dos que dormem.
O teu rosto, como ausência sempre presente em minh’alma.
Não és mulher.
És visão.
És estigma.
És cruz.
E quanto mais me entrego,
mais me torno o pó ao teu redor.
És minha santa invertida —
brilhando nas minhas trevas
onde só pecadores buscam o consolo.
Mas hoje, entre taças partidas,
preces perdidas e jamais ouvidas,
tu me surgiste —
vestida de luz,
com olhos de chaga,
flutuando sobre o silêncio profundo da dor.
Não disseste palavra alguma.
Apenas brilhaste —
como sangue em cálice sagrado,
como se fosses o próprio Corpo.
E eu —
ajoelhei humilhando o meu ser,
beijando teu vulto,
um vislumbre no chão,
e então, compreendi:
Eu sou o cordeiro do seu amor.
E em sacrifício à ti,
rasgo o meu peito,
retiro o meu coração, o mistério incompreendido.
Esse é o eterno e repetitivo sacrifício de te amar.
07 - Fragmento Inconsolável
Já não sei onde em mim se inscreve o teu nome
e onde o teu silêncio começa.
Quando te busco —
minhas mãos não são as minhas,
e os meus olhos se tornam os teus,
e minha boca, sempre vazia de ti.
E tu passas por mim,
e mesmo se eu fosse o chão,
não seria percebido por ti.
Mas eu sou o teu chão.
Eu sou o teu reflexo.
Eu sou o teu verbo,
que não pronunciado, não consigo mais ouvir o meu eu..
Dizei-me, Senhor:
o que fazer agora,
se uma parte de mim,
como um membro importante
que o corpo já não reconhece mais?
Eu sou o seu membro amputado.
Ela, o corpo que me nega.
Como viver assim,
sendo apenas o resto do que nunca foi inteiro?
Ando nu entre os cacos do espelho da minha razão,
um mendigo de afetos,
um verme que se arrasta vestido de víbora.
E por ela —
sim, somente por ela —
oferecerei a maçã.
Não por vingança.
Não, não há vingança em tal vingar,
mas sim o inexorável direito de ter o meu desejo em mim,
pelo simples motivo,
porque quero ser o todo em ti.
Mesmo que o todo seja a mentira.
Eu preciso dizer-te:
“Toma, meu amor”,
“esta fruta é doce,
é tua imagem,
é a verdade que queres.”
Mentira: é apenas o meu desejo,
o meu amor, o meu querer,
o meu falar em devaneio para os cacos do espelho que quebrei por ti.
Mas por dentro,
é fel,
é obsessão,
é o buraco onde jaz meu juízo.
E se mordes —
somos um.
Mas não por amor…
Por deformidade.
Já não peço que me ames.
Já não peço que me vejas.
Apenas sê minha pele.
E deixa que eu rasteje por ti
como quem rasga o véu do teu templo.
Pois eu sou o que sobrou
de um amor
que se recusou a ser.
E tu és o que falta
na minha própria existência.
Reflexos dos pedaços do espelho,
minh'alma em cacos, jaz.
08 - Confissão à Porta do Inferno
Ó Senhor que não me escutas mais,
Eu venho —
com os pés descalços de mim,
com o peito feito poeira de altar abandonado,
com o nome dela gravado em cada lasca da minha carne.
Venho porque não há mais onde estar.
Venho porque amar demais é estar fora de tudo.
Eu a amei com pureza —
mas ela era para o céu,
e eu, um servo do impossível.
Um dia, eu vi meu reflexo —
e não era eu.
Era ela.
O amor me consumiu até o fim da razão,
até não mais saber onde eu terminava, onde ela iniciava.
E assim,
ela com os olhos que jamais pousaram nos meus,
seguiu imaculada,
casta,
ignorante do inferno que me tornou.
O maior castigo, ó Deus,
não é que ela me negue.
É que ela nunca soube.
“Et vidi bestiam ascendentem de terra”
Eu sou essa besta.
Mas não porque quis —
porque amei, amei o meu desejo, o meu querer, o meu próprio eu.
E se o amor me condena,
então que o inferno me receba como mártir.
Não peço que ela me ame.
Nem que me veja.
Apenas que, em algum sonho distante,
uma sombra como a minha
lhe cause um arrepio,
um calafrio sem nome.
E que, nesse instante,
sem saber por quê,
ela diga:
“Alguém, em algum tempo, me amou demais.”
Minha alma está em cacos.
Como espelho partido,
sou a alma que jamais refletirá a Deus.
Mas refletirá Ela.
E isso, para mim, é céu suficiente.
Finalmente, adormecerei no fogo do inferno,
de onde minh’alma provavelmente foi forjada,
e que servirá para purgar o seu maior pecado.
Amar a ti mesma, como se ela o fosse Eu.
Amém.
09 - Liturgia do Campo Dourado
Eu vi o inferno de sua entrada.
Mas para minha surpresa,
ele em nada é feito de fogo.
Não há gritos, não há chamas,
não há tronos de ferro,
nem corpos se retorcendo.
Mas há vento.
E há também trigo.
Um vasto campo, quase eterno,
Tão dourado quanto os olhos que ela nunca pousou em mim.
Aqui, não mais a sinto.
Não ouço a sua voz,
nem sinto o desejo pelo calor do seu desdém.
Não há amor aqui.
E por isso, não há mais dor também.
Eu caminho livremente, como antes nunca pude,
Entre o ouro dos campos de trigo,
Das sementes que meus dedos tocam,
Nas sombras sem peso que meu corpo projeta.
Eu me tornei o sopro, o vento que move o trigo.
E o trigo? Todo o trigo que vejo,
pelos vastos campos de outro,
simplesmente é ela.
Ela que nunca me viu,
agora se move ao meu toque.
Mas sei que não é ela, pois agora, ela é o brilho de ouro eterno.
E isso é tudo o que sobrou sobre ela.
Aqui, sou rei de um reino de ouro em trigo.
Apenas um deus sem altar,
um santo sem fé,
um louco que se libertou para poder esquecer.
Aqui, ela não existe.
E por isso, posso finalmente amá-la.
Não há seu rosto,
não há sua forma,
apenas o trigo em sua dança final,
sob a minha própria loucura.
Este é meu paraíso.
Talvez o meu inferno.
Mas é exatamente o meu descanso.
E quando meu corpo fenecer,
e minhas mãos não puderem mais tocar os grãos maduros do seu trigo,
e ainda assim,
o campo dançará e continuará a dançar sempre que eu quiser soprá-lo.
Porque, mesmo morto,
o amor que ninguém viu,
será o vento eterno deste inferno dourado.
